Fatores de risco e de prevenção do suicídio em jovens: qual o papel da internet?

Por |2019-09-10T23:13:39+00:0010 de setembro de 2019|Uncategorized|0 Comentários

Fatores de risco e de prevenção do suicídio em jovens: qual o papel da internet?

Isabela Sallum
Psicóloga e Mestre em Medicina Molecular (UFMG)

O dia 10 de setembro marca o Dia Mundial para a Prevenção ao Suicídio, e em 2019 o foco da campanha Setembro Amarelo é voltado para crianças e adolescentes. A importância de se abordar este tema para esta faixa etária é visível, uma vez que o suicídio já é a segunda causa de morte entre jovens de 15 a 29 anos, estando atrás apenas de acidentes de trânsito (dados estabelecidos pela Organização Mundial de Saúde, OMS). A integração cada vez maior do uso da tecnologia em nossas atividades diárias torna a compreensão do impacto deste uso em nossos comportamentos um estudo relevante e cada vez mais recorrente na literatura científica, e um aspecto que vem sendo de especial interesse em abordagens voltadas à saúde mental é de que forma o uso da internet e das mídias sociais pode estar associado ao comportamento suicida – tanto como um fator de risco quanto como meio de prevenção deste comportamento.

O estudo do impacto das redes sociais em nossos comportamentos é recente e ainda é um campo a ser desbravado, mas mesmo no Brasil já temos algumas evidências anedóticas quanto à influência da internet sobre o comportamento suicida. Em 2006, o jovem músico de 16 anos, Vinicius Gageiro Marques, conhecido como Yoñlu, cometeu suicídio com assistência de outras pessoas por um chat de um fórum virtual. As reportagens da época exibiram a forma como o adolescente planejou seu autoextermínio e como obteve orientações de desconhecidos para seguir adiante com seu plano. O suicídio de Yoñlu é bastante impactante e abriu a discussão no Brasil sobre o uso das redes sociais, à época bem menos disseminadas do que atualmente. Embora casos como este sejam importantes para guiar as discussões sobre o assunto, a compreensão de fenômenos psicológicos depende de analisarmos evidências para além de casos isolados.

Uma revisão sistemática publicada em 20181 buscou compreender o efeito do uso da internet sobre comportamentos de automutilação e suicídio em jovens com menos de 25 anos. O estudo avaliou 51 artigos, englobando mais de 190 mil participantes no total, que analisaram efeitos positivos e negativos do uso da internet sobre os comportamentos-alvo. Os estudos abarcavam uma variedade de aspectos ligados ao uso da internet, incluindo a frequência geral de uso da internet, a realização de intervenções e tratamentos online, o uso de redes sociais, dependência de internet, uso de sites dedicados à automutilação, o uso de fóruns e blogs voltados para o assunto e o compartilhamento de vídeos e imagens associados à automutilação e suicídio. No geral, a revisão observou que distintos artigos verificaram tanto efeitos positivos (de prevenção e tratamento), quanto negativos do uso da internet sobre comportamentos de automutilação e autoextermínio, mas a maioria das pesquisas relatavam influências negativas deste uso – possivelmente porque o objetivo de grande parte dos estudos era de fato verificar se o uso da internet englobaria um fator de risco para os comportamentos-alvo.

Nota-se que os efeitos negativos do uso da internet pareceram estar mais associados à uma frequência alta de uso geral da internet, a comportamentos de dependência de internet e à busca e uso de sites com conteúdos voltado para a automutilação e suicídio. A exibição constante a conteúdos assim parece normalizar este tipo de comportamento e incluir gatilhos para tais comportamentos para grupos vulneráveis1. De fato, apenas ser exposto a casos de suicídio (por via de redes sociais ou meios mais tradicionais, como revistas e jornais) não parece ser um preditor para comportamentos suicidas, mas frequentar fóruns de discussão sobre o tema parece estar particularmente associado com aumento da ideação suicida2. Um outro fator de risco inclui o cyberbullying e a vitimização disseminada que pode ocorrer através das mídias sociais.

Apesar dos efeitos negativos, a internet também pode ser uma fonte de auxílio na integração social e na implementação de estratégias preventivas. O uso da internet pode facilitar a busca por ajuda, e plataformas como o YouTube, Facebook e Twitter já contém muitos vídeos e meios que buscam disseminar informações quanto a transtornos mentais, suicídio e formas de buscar ajuda. A grande questão a ser levada em conta é a forma como estas informações devem ser expostas, de modo a não propiciar gatilhos para o comportamento suicida3.

Um outro aspecto interessante do uso das redes sociais é seu potencial no auxílio para diagnóstico, uma vez que analisar o conteúdo das postagens dos usuários torna mais fácil a identificação de comportamentos de risco ou associados à saúde mental. Por exemplo, um estudo também de 2017 verificou ser possível encontrar padrões comportamentais de uso de redes sociais de pacientes com quadro prodrômico (ou seja, anterior ao diagnóstico) de transtorno bipolar (TAB). O estudo analisou o uso do Twitter de pacientes com TAB em um período de até 12 meses antes de eles terem sido diagnosticados com o quadro pela primeira vez, verificando o conteúdo de suas postagens. Os autores verificaram que o uso de tal metodologia foi capaz de atingir até 91% de precisão de classificação do quadro dos pacientes antes mesmo de eles serem diagnosticados4. Uma vez que a presença de transtornos psiquiátricos é um fator de risco importante para o suicídio, o uso das redes sociais para auxílio diagnóstico poderia fornecer mais uma maneira de agir preventivamente.

A utilização da internet parece apresentar ônus e bônus quando tratamos de saúde mental, e a chave para um uso saudável das tecnologias parece ser a parcimônia e a atenção quanto a possíveis riscos. Para quem convive ou trabalha com crianças e adolescentes, vale à pena ficar atento à forma de uso da internet e considerar os seguintes pontos:

  • A criança/adolescente usa a internet com muita frequência?

  • O uso da internet tem gerado prejuízos em alguma área da vida (familiar, escola, etc)? Há possibilidade de dependência?

  • A criança/adolescente frequenta fóruns de discussão com temas pesados e/ou associados ao suicídio e à automutilação?

  • A criança/adolescente está sofrendo perseguições e vitimização online?

Além disso, jovens que apresentam sintomas psicopatológicos ou ideação e comportamento suicida apresentam, com frequência, sinais que vão além do que é exibido nas redes sociais. Por isso, estar atento ao comportamento de crianças e adolescentes é importante para verificar se há vulnerabilidade para gatilhos online. A cartilha “Guia Intersetorial de Prevenção do Comportamento Suicida em Crianças e Adolescentes” (disponível aqui) traz estratégias para identificar jovens em risco para comportamento suicida e estratégias para prevenir o problema.

Por fim, quando tratamos de suicídio, o importante é estarmos atento aos sinais de mudança comportamental e estarmos prontos a oferecer suporte adequado a quem precisa. Compreender o problema com sua origem multifatorial é mais uma forma de garantir que saberemos como intervir da melhor forma possível.

Referências

1Marchant, A., Hawton, K., Stewart, A., Montgomery, P., Singaravelu, V., Lloyd, K., … & John, A. (2018). Correction: A systematic review of the relationship between internet use, self-harm and suicidal behaviour in young people: The good, the bad and the unknown. PLoS one, 13(3), e0193937.

2Dunlop, S. M., More, E., & Romer, D. (2011). Where do youth learn about suicides on the Internet, and what influence does this have on suicidal ideation?. Journal of child psychology and psychiatry, 52(10), 1073-1080.

3Luxton, D. D., June, J. D., & Fairall, J. M. (2012). Social media and suicide: a public health perspective. American journal of public health, 102(S2), S195-S200.

4Huang, Y. H., Wei, L. H., & Chen, Y. S. (2017). Detection of the Prodromal Phase of Bipolar Disorder from Psychological and Phonological Aspects in Social Media. arXiv preprint arXiv:1712.09183.

Deixar Um Comentário